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A
dependência química é um problema que leva todos nós,
sejamos educadores, profissionais da saúde, pais,
religiosos, a uma constante dúvida, a uma constante
interrogação feita não em termos de tese, mas em termos
de vivência. É um problema meio misterioso que ataca a
cada um de nós e assola o país. Interrogação algumas
vezes dramática, não meramente frente a um problema
geral, mas frente a pessoas determinadas, conhecidas e
muitas vezes, da nossa própria família.
Um amigo meu, há alguns anos atrás, me disse que em sua
opinião, formar uma família era semelhante a fazer um
negócio financeiro: A gente faz um levantamento da
situação, analisa os prós e os contras, calcula-se os
lucros e os prejuízos eventuais e finalmente faz o
balanço geral. Se o saldo for positivo, a gente fecha o
acordo e casa. Infelizmente (ou felizmente) a vida não é
tão simples assim. Existem os sentimentos.
A droga não é um fim em si mesma, mesmo porque ela não
tem vida e depende das pessoas para existir. Uma vez que
permitimos que ela se instale, o primeiro e principal alvo
é, através do Sistema Nervoso Central, alterar o que
sentimos e a partir daí, o quê e como vivemos.
Para o saudoso Pe. Paul-Eugène Charbonneau (OSB), o
comportamento mais comum das pessoas, diante das drogas,
é o de racionalizar, isto é, inventar razões e
desculpas, que justifiquem o aparecimento de um usuário
em sua família. Ele apresenta cinco tipos de
racionalização:
1. Acreditar que isso faz parte de uma crise da
civilização - Esta tem costas largas, pois pode-se jogar
sobre ela toda e qualquer coisa, desde comportamentos
sexuais equivocados e desastrosos, falta de opções no
mercado de trabalho, pressão dos meios de comunicação,
falta de fé, etc.;
2. Acusar o mundo - O mundo em que vivemos é um mundo de
perdição, destruição e loucura. Mundo que não oferece
mais por onde se salvar, mas que chama o jovem e o ajuda a
se destruir;
3. Passar o problema a outros- A ineficiência e
conivência da polícia, o não comprometimento de nossos
governantes na criação de uma política antidrogas, a
morosidade de nossos legisladores na criação de leis
mais duras para a punição dos traficantes e a omissão
da sociedade como um todo.
4. Refugiar-se na ignorância sistemática e teimosa -
Reconhece-se que a juventude está ameaçada pelas drogas,
que um sem-número de jovens estão mergulhados nas
drogas... Mas pensa-se: o meu filho não!
5. Cultivar a indignação - Procura-se entender como e
porquê isso foi acontecer justamente consigo e sua
família. Fizeram de tudo para dar aos filhos o melhor.
Viagens, bons colégios, boa alimentação, bom clube,
etc..., e isto é o que recebem de volta?
A racionalização, contudo, não explica o que está
acontecendo com nossos filhos
e nossas famílias. A onda de destruição e medo que nos
assola, não pode ser medida por conceitos
pré-fabricados, tradição ou transferência de
responsabilidades. É preciso que tenhamos diante das
drogas, uma atitude de escuta e compreensão.
Não existem duas pessoas iguais neste mundo, mesmo que
sejam de uma mesma família. As regras não podem ser
impostas a todos, pois ninguém reage da mesma forma nas
mesmas coisas.
Nós precisamos entender como e porquê uma dependência,
seja ela de drogas ou de qualquer outra natureza, se
instala.
A maior razão para viver nas drogas, é a busca do prazer
ou num estágio mais avançado, tentar evitar o desprazer.
Dizer a uma pessoa que está nessa, que ela precisa
encontrar outra forma de sentir esse prazer, mas sem
drogas, é um erro!
O prazer que as drogas proporcionam não pode ser obtido
de nenhuma outra forma, mesmo porque ele não vem
diretamente da droga em si, mas de um conjunto de fatores,
locais, pessoas, lembranças, etc., que a pessoa cria em
torno dela.
Nós vivemos cercados de situações que nos levam à
cultura da droga, que faz com que nos calemos diante do
consumo exagerado de álcool (no Brasil bebe-se mais
cerveja do que leite!), das propagandas feitas por atores
e atrizes famosos, das festas em nossas casas e Igrejas
que não conseguimos imaginar sem bebida alcoólica, etc.,
etc...
É hora de revermos nossos conceitos e nos posicionarmos,
como cristãos e como sociedade civil, claramente contra
essa cultura da morte.
Esperar que caia do céu, só a Graça de Deus: a luta
contra as drogas é problema nosso!
No próximo mês, no segundo artigo dessa série, falarei
sobre a Dependência Química, os diversos tipos de drogas
e sua ação no organismo. Até lá, devemos avaliar se
estamos preparados para enfrentar essa guerra contra as
drogas e como estamos vivendo isso em nossa família.
Toni
Florestam, é Psicólogo e Mestre em Psicologia Social
pela PUC-SP.
É colaborador do programa Mulher.Com da TV Século 21.
e-mail: toni@toniflorestam.net
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