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Formação
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A Família
Ligth |
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A família é um ecossistema
natural para a defesa da vida humana e da liberdade. Uma
afirmação tão clara merece um breve comentário:
Desde que o mundo é mundo, o Poder (qualifique-se como
pareça melhor: político, econômico etc.) sente a
perversa tentação de influir no modo de pensar do
pessoal e, se é possível, de manipulá-lo. Os meios dos
quais se dispõe são cada dia mais eficazes: o Poder,
como seu próprio nome indica, pode uma barbaridade: será
preciso insistir nas catástrofes encefálicas que são
produzidas em um cérebro padrão quando lhe é aplicada
uma dieta de 700 horas anuais de televisão?
O adestramento ao qual nos submetem os poderosos - jamais
renunciam a tão abnegada tarefa - não é devido ao amor
que nos professam. No melhor dos casos, buscam só nosso
voto, e para consegui-lo, nada melhor que formar cidadãos
dóceis à ideologia dominante, conectados aos
eletro-domesticadores que o Poder controla, para que nunca
caiam na tentação de pensar por conta própria.
Graças a Deus, o Poder encontra alguns obstáculos em seu
empenho domesticador. E o primeiro é precisamente a família.
É que Deus, Nosso Senhor, previu que os indivíduos
viessem ao mundo em um meio natural, chamado "família":
um ecossistema fundado no amor do homem e da mulher, que
cria em torno a si um âmbito de intimidade, necessário
para o nascimento e para a formação dos filhos.
Essa intimidade familiar é, hoje mais do que nunca, um
reduto de liberdade frente ao totalitarismo. É a camada
de ozônio que protege dos raios do Poder, muito mais
perigosos que os ultra-violeta.
Quando uma família cumpre com sua missão, transmite
convicções e valores; educa nas virtudes; ensina a
pensar, a lutar, a amar, a falar com Deus, e a se defender
das influências e agressões externas. Em resumo: vacina
os espíritos contra os slogans e os tópicos, e
proporciona aos filhos as armas imprescindíveis para agir
livre e responsavelmente.
A um estado com tentações totalitárias, a família o
molesta. Prefere entender-se diretamente com indivíduos
emancipados, "liberados" (as aspas que sejam
gordas, por favor) de qualquer influência que não a do
próprio Poder.
O problema é que a família existe, e seu prestígio não
decresce apesar dos anos mais ou menos internacionais que
se organizam contra ela. Que pode fazer então o Poder
para entrar 'bem vestido' nas mentes dos cidadãos?
Sua estratégia foi a de ir enfraquecendo essa camada de
ozônio à qual me referia antes, até conseguir que a família
fique reduzida quase a uma simples fachada, a uma espécie
de residência de indivíduos autônomos unidos por vagos
sentimentos de afeto ou por uma geladeira bem repleta.
Assim nasceu a família light: uma instituição própria
dos países ricos, já que os pobres não estão em condições
de se permitir tais luxos.
Descrever a sério suas características nos tomaria muito
espaço. Contemos, então, brincando. E, ainda que não
sintais aludidos pelo retrato, pensai que talvez alguns
destes traços formem parte de vossa caricatura... ou da
minha.
* A família light costuma ser pequena. Desde então, há
muitos casais maravilhosos com poucos filhos; mas nada
como uma família numerosa para vacinar-se definitivamente
contra essa doença.
* A família light gira em torno a três eletrodomésticos
fundamentais: a geladeira, a televisão (com vídeo) e o
aparelho de som.
* A geladeira serve para comer a la carte em qualquer
momento do dia ou da noite, sem submeter-se a horários
nem a dietas maternas. É útil também para conviver o
menos possível com os demais e para tomar uma cerveja com
alguma coisa diante da...
* ...televisão. É ligada ao amanhecer e, graças à função
de timer, desliga sozinha quando todos adormecem. Há
tantas na casa conforme o número de quartos: a televisão
da sala de jantar serve para não correr o risco de falar
se, por casualidade, um dia se reúne a família inteira.
A da sala é a do pai, que vem super-estressado do
trabalho e necessita relaxar-se em seu sofá com um filme
do canal plus. A da salinha é para a mãe, que também
tem direito a seu divertimento cotidiano; e as dos dormitórios,
como seu próprio nome indica, servem para dormir sem ter
maus ou bons pensamentos.
* Os aparelhos de som, ou, em sua variação, o walkman,
produz um delicioso efeito isolador: corta toda relação
com os demais e, é perfeitamente compatível com a
consolação dos videojogos, que é o hipnótico dos mais
jovens.
* Na família light existe uma férrea autoridade para
todo o acessório (a escolha do carro, o lugar de
veraneio) e uma total anarquia para o fundamental (assistência
à Missa etc.).
* Os membros de uma família light nunca rezam juntos,
talvez porque se veriam obrigados a desligar a televisão.
Em realidade, a vida espiritual de cada um é uma questão
tão íntima e profunda, que, para encontrá-la, teriam
que fazer escavações.
* Na família light se fala muito de sexo: o pudor está
superado por completo, e todos têm uma exaustiva informação
sexual (um bom manual de instruções, quero dizer).
Entretanto, jamais se fala a sério de amor, de
fecundidade, de fidelidade, de entrega... (Criança, essas
porcarias não se mencionam!). À família light só
interessa o sexo light.
* Estas família também têm suas tragédias, amarguras e
desgostos. Eis aqui quatro exemplos significativos:
1. O "fracasso escolar" do garoto. A culpa,
obviamente, é sempre do colégio, que se consente em
produzir traumas, provavelmente irreversíveis, na
auto-valorização da criatura.
2. A garota engordou e não tem o que colocar para a festa
de aniversário de Vanessa.
3. Joãozinho teve a idéia de dizer que quer ser missionário
em Uganda. ("As seitas nos atacam", comenta com
pesar o pai). Deve-se ter presente que, em uma família
light, a entrega a Deus é considerada como uma neurose,
tolerável nas famílias dos demais.
4. Deram um arranhão na lataria do "Audi" do
papai, e não se fala de outra coisa em três dias.
* E se o garoto chega em casa ao amanhecer fedendo a
bebida até pelos ouvidos? Então, sim; o pai de família
light tomará uma decisão firme: se esconderá debaixo da
cama para não ficar sabendo. "Qualquer dia - dirá
preocupado - tenho que falar seriamente com o rapaz".
* Na família light existe uma discreta biblioteca e uma
nutridíssima videoteca. O pai se ocupa de comprar os dois
ou três livros mais vendidos do mês, e sempre se
encontram também outros títulos tão sugestivos e
profundos como "Como ser aprovado sem dar o
golpe"; "Como conseguir a filha do chefe";
"Breve tratado de papiroflexia" ou Guia de
Restaurantes e de Motéis".
* Na família light tudo é trivial, salvo o trivial. Tudo
é opinável, salvo o princípio da opinabilidade
universal. Ninguém tem convicções nem crenças, mas
opiniões. Em resumo:
padecem de uma síndrome de imunodeficiência moral de difícil
tratamento e mau prognóstico, já que se vêem expostos a
todas as infecções ideológicas de moda. Não lhes
preocupa. O único que lhes importa é a boa saúde e
conservar pelos séculos dos séculos este fresco
esplendor dos adolescentes dos filmes.
Postdata:
O artigo que publiquei em "Mundo Cristiano"
acabava assim: de ponta e para baixo. Minha mãe, que é
minha consciência crítica mais severa, me disse que não
gostava do final.
- Não podes terminar dessa forma... Deves dar soluções.
Não queirais desesperar as famílias light.
Tinha razão, mas não era fácil finalizar o artigo em
quatro linhas. Uma doença tão grave não se cura com
pomadas. Do aburguesamento, da tibieza não se sai pouco a
pouco, como sem querer; é preciso uma conversão, uma
mudança radical de atitude. E disso estamos falando: de
uma mediocridade que pode afetar da mesma maneira tanto as
pessoas singulares, como às famílias, aos casais, os
lares, cristãos ou não.
- Então...?
Então devemos pedir ao Senhor que, o quanto antes, nos faça
entender a seriedade do problema.
Que ninguém se acostume à tristeza do amor light e do
egoísmo.
Que os pais queiram reagir, e reajam.
Que se reconstrua a camada de ozônio, da qual falava
antes, para que nem a voracidade do Poder nem o peso das
ideologias alterem este ecossistema de amor e liberdade.
E, sobretudo, que os mais jovens encarem o matrimônio com
desejo de aventura, dispostos a se entregar, a formar uma
família e a encher sua vida com esta empresa colossal que
Deus lhes encomenda.
Por Enrique Monasterio
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Fonte: ACI Digital |
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